segunda-feira, 31 de maio de 2010

Santuário Ecológico

Acordei querendo falar de coisas boas. Motivada pelas músicas e vídeos em torno da Copa do Mundo, repeti inúmeras vezes...estou na África, estou na África, estou na África. Lidando ainda com as dificuldades de Joanesburgo e de firmar algum tipo de rotina aqui, resolvi esquecer esses aspectos não muito positivos da cidade e me deixar levar pelos temas de campanhas publicitárias. Tenho que agradecer à Coca-Cola e à FIFA por me fazerem arrepiar e sentir a vibração que a Copa do Mundo está prestes a começar. Não estou aqui em prol de nenhuma marca, mas é uma prova da potência do marketing, isso não posso negar.

Em torno das sensações, me peguei com flashs de imagens do Kruger Park, o maior parque nacional da África do Sul - 19.633 km² de um santuário ecológico. Um sonho de criança realizado semana passada, e que me custou 36 horas sem dormir.

Reservamos o ônibus para sexta-feira às dez da noite. Na verdade o Matt que planejou a viagem, e eu nem precisei me preocupar com nada. Marcamos com o Dixon, um motorista de táxi, imigrante do Congo e super confiável, para levar a gente de Sandton até a rodoviária. Saí de casa umas duas horas da tarde, pois antes quis visitar um orfanato, só não imaginava que era tão longe. O táximetro me custou ao todo oitocentos rains, equivalente a duzentos reais. Uma facada no peito inesperada. Não tinha esse dinheiro no bolso e fiz o taxista me acompanhar até um caixa eletrônico, no Sandton City. Era a primeira vez que ele colocava os pés ali e não parou de repetir isso até ir embora. Paguei o que devia e fiquei zanzando pelo shopping. Era uma seis horas da tarde, as lojas já estavam fechando as portas, e sem nada para fazer, fiquei perambulando mais um pouco até o Matt chegar.

Não sabia o que esperar de uma rodoviária de Joanesburgo. Apesar da cidade ser bastante desenvolvida, coisas sem explicações podem ser encontradas por aqui, por exemplo, semáforos e postes de luz de avenidas importantes e movimentas não funcionam à noite, sendo o horário mais perigoso. Existem algumas desculpas para tentar justificar, mas nada convincentes, por isso, sempre quando ando por aqui, não sei bem como vai ser.

Olhando por fora achei a rodoviária um pouco suspeita, estava escuro e sem movimento nas ruas. Quando entrei, suspirei de alívio. Não é nenhum luxo, mas pelo menos é iluminada. A princípio éramos dois de quatro brancos esperando o ônibus, mais tarde chegaram quatro meninas, todos nós, turistas estrangeiros. Fomos o foco de atenção para muitos. Como na Ásia algumas vezes tiraram fotos de nós, aqui também somos vistos diferentes, ainda mais em lugares pouco frequentados por brancos. Estava rezando para o ônibus ser confortável e as estradas boas. Tudo certo, só que com um porém, os assentos não são reservados, e isso não tinha sido avisado para nós. Foi outro pedido para conseguir sentar com o Matt, que a princípio não foi atendido, mas depois de um tempo uma mulher moçambicana cedeu seu lugar para mim. Demos sorte de não termos sido os últimos a entrar na fila, por pouco ficamos sem viajar.

As quatro meninas e mais dois indianos tiveram que ficar, não havia assento para todo mundo. Fiquei sem entender. Estavam todos os lugares ocupados, restando apenas um. Foi um entra e sai de funcionários da companhia de ônibus que fiquei confusa. Depois de muito tempo eles pediram para três pessoas saírem do ônibus, as meninas entraram e os indianos ficaram de fora. Não sei o que deu, que elas tiveram que sair do veículo, sendo impedidas de embarcar, mesmo havendo esses quatro lugares vazios. No portão de saída da rodoviária, aquelas mesmas pessoas que foram retiradas, entraram novamente no ônibus. Com certeza estavam sem passagem, mas foi dada a preferência para elas. Vai entender.

Durante o trajeto fomos parados três vezes pela Polícia Rodoviária. Checa bagagem pra cá e pra lá, e depois da terceira vez paramos no meio do nada. Estava sem dormir, doida para chegar e não aguentava mais a lentidão da viagem. O que viria dessa vez? Um dos homens que embarcaram sem a passagem foi chamado por um funcionário da empresa para pegar suas malas e colocar em outro lugar. Isso já era umas três horas da manhã, numa estrada iluminada apenas pela luz da lua. Com certeza havia um esquema de contrabando acontecendo por ali, ainda mais com destino para Moçambique. Ninguém argumentou nada, parecia que aquilo fazia parte da rotina da viagem, e assim continuamos até o final.

O que levaria em torno de três horas de carro, demorou sete horas de ônibus. Estávamos na fronteira com Moçambique. Marcamos com a Jean, guia turística, de nos pegar lá. Descemos do ônibus sem saber direito aonde estávamos e como íamos achá-la. Ela nos encontrou. Passamos rápido no nosso backpackers para deixar as mochilas, jogar uma água no rosto, pegar mais duas pessoas e ir direto para fazer o “Game Driver”, ou safári, no Kruger Park. Esperava ter umas três horas de sono antes de começar o dia, mas não deu. As melhores horas para conseguir ver os animas são ao amanhecer e final da tarde.

Seis e meia da manhã e um frio de congelar, mal entramos no Kruger e já tivemos sorte. Bom, se não estivéssemos com um guia, não nos daríamos conta de que em nossa frente estava a estrela principal do parque, o Duke, um elefante de 55 anos de idade e procurado por muitos amantes de animais. Ele ficou calmo e tranquilo até querer atravessar a estrada. Sacudindo a cabeça e um pouco agressivo, ficou perto de um carro querendo passar. O casal que estava no carro procurou o Duke durante dez anos, e nós o encontramos em vinte minutos.
Após 36 horas ativas, fomos recebidos no backpackers com um delicioso “brai”, o churrasco e orgulho dos sul-africanos. Dormimos cedo, estávamos exaustos e marcamos uma dobradinha de safári para às seis horas da manhã do dia seguinte, queria ver de qualquer jeito um dos grandes felinos.

Durante a manhã conseguimos estar no exato momento em que os cachorros selvagens, mais parecem hienas, procuravam por um presa. São um dos melhores caçadores, mas nós não éramos nada para eles. Menos mal. Um ficou bem próximo, nos encarando, e conseguimos ótimas fotos. Ainda não tínhamos achado os leões, estava quase desistindo quando finalmente conseguimos ver de perto um casal numa preguiça danada. Achei maravilhoso ver a vida selvagem naquela paisagem exuberante, poderia passar semanas observando esses animais, só que já era hora de voltar, tínhamos que pegar o ônibus na fronteira às nove horas da noite.

Dessa vez o David, dono do backpackers, que nos levou até lá. Ficamos esperando no posto da Polícia Federal. Dentro, dá até para sentir segura, mas em volta que é bem estranho, ficam umas pessoas esquisitas vendendo comida e bebida no meio de um breu. Estávamos com medo de não ter lugar no ônibus, já que viria de Maputo, provavelmente lotado. O ônibus chegou com poucos assentos vazios, foi revistado e nós embarcamos. Chegamos em Joanesburgo por volta das três e meia da manhã, quebrados e congelados, e lá estava o Dixon nos esperando.

Depois de um final de semana fora do ritmo de Joanesburgo, que até agora estou tentando me encaixar, a atenção volta para a Copa, e as imagens giram em torno da beleza que é ver a expectativa, a ansiedade e a emoção do povo para o espetáculo do futebol. Com certeza estou contagiada por esse clima.


Kruger Park 



Duke

























domingo, 30 de maio de 2010

A BELEZA DA CIDADE DO CABO



Table Mountain


Piscina Pública






Camps Bay









Entardecer na Table Mountain


Cabo da Boa Esperança



sexta-feira, 28 de maio de 2010

Entre muros

Antes de vir para cá, fui avisada inúmeras vezes que Joanesburgo, apelidada Joburg, não é uma cidade fácil para se adaptar e viver. Não quis acreditar. Aqui tem ótimos restaurantes e shoppings, e alguns parques e jardins, mas que não fazem muito parte da rotina da cidade.

Na primeira semana que cheguei, fiquei em Sandton, um dos bairros mais ricos e que concentra boa parte dos hotéis, alguns ainda no acabamento final para a Copa do Mundo. O Sandon City Shopping forma junto com a Nelson Mandela Square um complexo de ótimas lojas e boas opções para comer, e é um dos pontos turísticos pela enorme estátua de bronze do ex-presidente Nelson Mandela. Achei meio esquisito, não me agradou muito.

Resolvi fazer um dia de tour para conhecer tudo de uma vez só. Estava curiosa por Soweto, originalmente uma favela, onde Nelson Mandela morou e que teve o maior movimento anti-apartheid. Já imaginava que de 20 anos para cá o lugar havia mudado, mas fiquei abismada com tamanho desenvolvimento – ótimas casas, ruas asfaltadas e arborizadas. Parece um bairro do subúrbio estilo americano, só que com um detalhe - as áreas são divididas, variando de casas e moradores, desde os novos ricos que habitam condomínios com nomes como Beverly Hills, até aos miseráveis com moradias super precárias contruídas com madeira, papelão e pedações de latões. Assim é Soweto.

Passei também pelo centro, uma área que abriga muitos prédios abandonados, como de um antigo hotel que funcionou até o local se tornar um dos mais perigosos. O Governo está tentando revitalizá-lo, mas ainda não é muito seguro.

Quando percorrí as áreas da cidade fui afrontada algumas vezes com olhares meio esquisitos, do tipo o que você branca faz aqui. Mais de 80% da população da África do Sul foi sofrida pelo domínio dos brancos, e o processo de obter a igualdade é demorado, algumas décadas terão que se passar para ficar melhor. Conversei com muitas pessoas que me disseram que poderiam estar melhores de vida se nada disso tivesse acontecido. São motorista de táxis ou de vans de turismo, alguns moradores de Soweto, e todos terminavam com a frase “não adianta pensar no passado, agora está tudo caminhando e penso no futuro dos meu filhos/netos”.

Nessas conversas sempre perguntava da segurança, da falta de transporte público e do Arpatheid. Ouvi apenas uma resposta de que Joanesburgo é segura. Onde não há segurança, não há gente nas ruas. As pessoas praticamente não andam a pé, o único transporte público que percorre todos os pontos são vans que se você não sabe por onde ir, desista. Quem tem dinheiro no bolso, compra um carro, quem não tem, se arrisca por onde dá. Grande problema para mim que estou longe de tudo e dependo de táxis, e eles são caros e poucos. Tem mulheres que não andam de táxi nem por decreto, já que ficam mais vulneráveis à violência. Não posso afirmar, mas isso para mim é um exagero.

Um alto de índice de estupro se encontra aqui. Numa reportagem que li, uma pesquisa apontou que entre grupos de quatro homens, um admite já ter estuprado uma vítima. Junto com o maior índice de estupro, sobe ao pódium o do país com a maior população portadora do vírus HIV. Para completar, o atual Presidente Zuma fez recentemente um teste que deu negativo para o vírus da Aids. Ele tem três esposas, e em 2006, admitiu também ter mantido relações sexuais sem camisinha com a mulher soropositiva, e pior, afirmou que tinha tomado banho depois do ato acreditando que isso reduziria o risco de infecção.

A África como um todo grita por socorro. Na reportagem de Fábio Zanini, do blog Pé na África, mostra anúncios em jornais de curandeiros que dizem curar pessoas com a doença. Inacreditável. Outro sério problema que já resultou em ataques violentos é o preconceito, talvez uma xenofobia, sobre os imigrantes dos países vizinhos, citado na minha última postagem. Os sul-africanos de baixa renda os culpam pelo desemprego, alegando que eles tiram o trabalho de quem é daqui.

O país vive nessas condições – população dividida, desemprego, falta de segurança, além de crianças crescendo com Aids. O que choca também é a quantidade de crianças orfãs. Visitei semana passada um orfanato com o intuito de fazer um trabalho voluntário. Infelizmente o local é muito longe, e como estou sem carro fica difícil chegar até lá. O que me confortou é que o lugar é bem agradável, as crianças saudáveis e pareciam felizes. Achei um mais perto da minha casa, e provavelmente é onde vou passar alguns dias da semana.

Aqui estou, me adaptando, correndo contra o tempo para fazer valer a pena, observando onde somos diferentes e às vezes tão iguais. Do que eu imaginava, a África do Sul vem me surpreendendo em alguns aspectos, como o american way of life, vivido pela população de classe alta. Também não esperava ficar tão dependente para fazer minhas coisas, como uma simples ida ao supermercado. Essa é a primeira impressão de quem saiu de uma total liberdade para uma cidade escassa de transportes públicos. Durante a Copa do Mundo, esquemas vão ser montados para receber os turistas, depois disso não sei como ficará. This is Africa!

Entre os muros da pobreza e da riqueza, dos brancos e dos negros, dos sul-africanos e dos imigrantes, do rápido desenvolvimento para alguns e da lentidão para outros, o país tenta construir uma nação de paz e igualdade. 

terça-feira, 25 de maio de 2010

Finalmente pisei na África

Há quatro ano atrás passou uma reportagem no Fantástico sobre a próxima Copa e quanto precisaria juntar para conseguir ir para a África do Sul e sentir o gostinho de ver o campeonato de perto. Confesso que não sou louca por futebol, acompanho e consigo ter uma noção do que está acontecendo com os times no Brasil, enfim, as principais notícias eu dou conta, mas como todo brasileiro, fico insana numa Copa do Mundo....grito, xingo, choro.

Juntei a Copa e o sonho desde criança de conhecer a África. Louca por animais, nunca tirei da cabeça fazer um safari e ver aqueles bichos incríveis bem de perto e livres na natureza. Brinquei com os meus pais que então abriria uma poupança, e assim foi feito. Durante quatro anos muitas coisas aconteceram. O desejo amadureceu e a vontade passou também de ficar por mais tempo, com calma, para conhecer o povo e o estilo de vida dos africanos. Tinha que optar por qual país, ainda mais sendo tão diferentes um do outro. Independente da Copa do Mundo, Angola, Moçambique e África do Sul eram os meus focos. Por uma feliz coincidência ou destino, surgiu uma oportunidade para o Matt, meu namorado, de trabalhar em Joanesburgo por três meses em função da Copa do Mundo. Perfeito. Não poderia deixar de ir. Fiz a escolha de sair do trabalho e ter essa experiência num país do continente africano.

Coloquei pela primeira vez o pé na África no dia 28 de abril de 2010. Cheguei pela Cidade do Cabo, simplesmente maravilhosa. Essa época a temperatura já começa a cair, o que foi um impacto para mim sair de um calor infernal e deparar com 10ºC e um vento de doer. Só que eu estava na África do Sul e para mim nada mais importava. Os dias estavam deslumbrantes, a vegetação muito verde, o céu sem nenhuma núvem, o mar azul e aquele sol de inverno que eu adoro. A Cidade do Cabo lembra o Rio de Janeiro. Praia, o verde e dias lindos. O que percebi é que parece ser mais organizada, as ruas sem buracos, sinalizadas e limpas. Foram cinco dias perfeitos e não deu para cansar de admirar a paisagem.

Logo na primeira noite fui assistir a final do Campeonato Mundial de Futebol Freestyle, e já deu para sentir uma prévia da torcida da Copa. Sem dúvida o futebol é um esporte que colabora para as pessoas se socializarem. Na Ásia por onde andei, volta e meia via crianças, jovens e adultos com uma bola no pé ou alguém citava os nomes dos nossos famosos jogadores - isso é clássico em todo o mundo. Só falar que você é do Brasil que os olhos arregalam e brilham e aí vem....Ronaldo, Ronaldinho, Pelé, Kaká. Mesmo já sendo banal, o orgulho vem como um reflexo e você se vê apaixonada pelo esporte. O Brasil foi representado no campeonato de futebol freestyle pelo carioca Arthur Mansilla, atual campeão brasileiro. As bandeirinhas verdes e amarelas se espalhavam também pela torcida, mas a final foi disputada entre um sul africano e um norueguês. A torcida vibrava tanto que nem dava mais para sentir o frio que estava e só se ouvia as batidas dos pés na arquibancada e as vuvuzelas, o que não poderia faltar. Imaginei como eles vão se sair num jogo da Copa.

Em uma semana na Cidade do Cabo tive dois dias envolvida com esportes. O rugby é o mais popular entre os brancos na África do Sul, junto com o críquete, também muito praticado aqui pelos indianos. O futebol é o número 1 do país, principalmente entre os negros. O rugby fez a sua história aqui, e com a mente brilhante de Nelson Mandela conseguiu unir as duas raças numa mesma torcida em 1995. Em resumo, Mandela, na época presidente da África do Sul, utilizou do esporte para conquistar os brancos e fez com que os negros o seguissem com a mesma forma de pensamento. Uma de suas memoráveis citações marcou este fato: se quiser fazer as pazes com o seu inimigo, você tem que trabalhar com ele. Daí, ele se torna seu parceiro (Nelson Mandela).

Foi a primeira vez que a seleção da África do Sul, apelidada de Springbok, levou o título de Campeã Mundial. O país inteiro foi levado pela emoção da vitória, ainda mais sobre a melhor seleção do mundo, os All Blacks, da Nova Zelândia. Quem viu o filme Invictus sabe melhor do que estou falando. Assisti ao filme antes de ir num jogo super importante entre o Stormers, da África do Sul, e o Crusaders, da Nova Zelândia. O estádio estava lotado e o Stomers ganhou numa partida disputada e emocionante. Na torcida se via alguns negros, porém, os torcedores ainda sim em sua maioria eram brancos.

Hoje todos os povos têm os mesmos direitos. De fato no país ainda há numa certa separação entre a população, consequência do Apartheid – política de segregação racial adotada em 1948 na África do Sul e abolida em 1990, segundo os brancos detinham o poder sobre outras etnias, como negros e asiáticos. O preconceito se instala também entre os negros sul africanos sobre os negros imigrantes de Moçambique e do Zimbábue, dois países sofridos por crises políticas e econômicas.
É tanta diversidade que nas ruas da África do Sul você pode ouvir onze línguas oficiais do país, sendo nove dialetos africanos, o inglês e o afrikaner, além das línguas estrangeiras, só que hoje todos se entendem e a mais falada é a do futebol, o esporte que mais une as pessoas no mundo.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Um poquinho de Cambodja e um semana de mar, sombra e muitos shakes - famosos e refrescantes sucos naturais batidos com gelo

Da nossa viagem restaram somente 3 dias para o Cambodja. A Cássia teria que voltar para o Brasil, eu e Let seguiríamos para a última semana da viagem no sul da Tailândia. A essa altura a Luana já não estava mais conosco. Como ela tinha mais tempo, resolveu conhecer outros lugares.

Decidimos então ir somente para Siem Reap, ponto de estadia para quem está interessado em visitar Angkor Wat. A cidade também oferece uma variedade de restaurantes. As casas de massagens estão presentes em toda a Ásia e não era ali que faltaria. Quem procura esses destinos não precisa se preocupar nem com comida, nem com as horas de relaxamento. Isso é garantido.

Chegamos bem na época do Ano Novo deles. A comemoração dura três dias, as casas são decoradas com estrelas e bandeiras coloridas, e são muitas as oferendas colocadas nos altares budistas. Pela tradição, eles celebram o fim da colheita e o recomeço de um ano melhor. Comemoram em suas próprias casas com jantares entre as famílias, mas achamos um lugar mais animado e entramos na dança tentando copiar os vários passos para cada música tocada. Foi muito divertido e só no final que conseguimos acertar.

Oferendas


No meio da dança


No segundo dia combinamos com um motorista de tuk tuk às cinco horas da matina para ver o nascer do sol entre as ruínas dos antigos templos de Angkor. Pular da cama a essa hora depois de dias viajando teve uma recompensa enorme. O sol nasce atrás de uma das ruínas formando um desenho de emocionar por tamanha beleza, uma maravilha do mundo. Dessa vez tivemos uma falha de planejamento. Com três câmeras conseguimos ficar sem nenhuma nessa manhã, mas demos um jeito na distração. A minha, esqueci de carregar e nem levei. A da Cássia e a da Let ficaram sem bateria no início do dia. Assim recorremos aos amigos chineses que tiraram algumas fotos nossas. De um recebemos, mas de outro ainda não. Infelizmente ficamos sem muitas fotos dos principais templos, mas voltamos durante a tarde e conseguimos algumas imagens boas. Com foto ou sem, com certeza esse lugar é inesquecível. Tentamos ver o pôr-do-sol, mas o tempo mudou durante o dia e voltamos para o hotel já vencidas pelo cansaço.

Nascer do Sol em Angkor


Monge no meio dos turistas


Vencidas pelo calor


Ruínas de Angkor

Só desse pouquinho de Cambodja deu para perceber a simplicidade do povo. Além disso, as crianças são de mexer com a gente, mas atenção, elas são treinadas para isso, e o que de fato é uma tristeza. Elas te agarram e não te largam até alguém se render para comprar alguma comida. As mães estão ao redor, mas negam que são seus filhos. Ao perguntar para uma moça que estava observando as crianças se eram seus filhos, ela se recusou a falar, mas os olhos eram fixos principalmente para um recém-nascido que estava nos braços de uma criança de uns 4 anos. Tentei conversar mais, só que fui ignorada. Saímos de lá com o coração partido.



Menino agarrado no colo da Cássia - ele
só largou dela quando a caixa de leite foi comprada


A pobreza estampada em todos os lugares

Deixamos Siem Reap rumo à Phi Phi Island, paraíso no sul da Tailândia. A Cássia ficou em Bangcoc e nós seguimos para o destino final. Bom, achamos que não a veríamos mais nessa viagem, mas dois dias depois ela veio nos encontrar, já que ficou presa em Bangcoc sem poder voar por causa da erupção do vulcão na Islandia.


Phi Phi Island é um dos picos turísticos da Tailândia. Depois do filme A Praia, filmado lá, a quantidade de turistas aumentou. Diferente do que imaginava, tem muita agitação. Fugimos dela... somos mais do dia do que da noite. Em Phi Phi, consegui realizar um dos meus sonhos que era fazer um curso de mergulho e finalmente mergulhar de verdade, sem o bendito snorkel. A experiência foi maravilhosa. Quem já mergulhou sabe a paz que é, você só ouve a sua respiração e deixa ser levado pelo movimento do mar. Melhor ainda foi ver o que eu mais queria: tubarão. O animal, tranquilo, deixou a gente se aproximar bastante. Na dele, ficou estático no fundo do mar. A fauna marinha é exuberante, e num rápido mergulho dá para ver muitas espécies... muitos “Nemos”, tartarugas e outras criaturas magníficas.

Maya Bay


Pôr-do-sol em Phi Phi

Depois dessa semana relaxante, eu e Let fomos para Phuket. Foi de lá que pegamos o voo final da viagem. A Cássia já tinha voltado para Bangcoc para tentar se encaixar na fila de espera da cia aérea. Phuket não é uma cidade que recomendaria, se não fosse por duas praias muito bonitas, porém rodeadas de resorts. Ficamos em Patong Beach, nada atraente. É lá que ficam os restaurantes e uma rua que lembra duas de Bangcoc – a Khason Road e a PatPong. A primeira por ter um monte de souvenir e bugingangas, e a segunda por ter casas dos famosos shows de ping-pong. Esqueci de comentar que em Bangcoc fomos a um show desse tipo, o que rendeu em vez de bolas de ping-pongs arremessadas pelas vaginas das mulheres, bananas. Uma das mulheres não foi com a nossa cara e mirou em nossa direção. Tivemos que desviar e por um fio não caiu em nós. Difícil foi parar de associar toda vez que víamos a bendita fruta ao espisódio. Só de lembrar me dá náuseas. Ficamos com medo das bolas de ping-pong e caímos fora. Nem sei por que fomos nesse lugar. Coisa típica de turista, mas grotesca e nada a ver. Sabe quando todos falam que tem que ir por ser famoso e você cai na onda, então, foi por aí, mas não voltaria nem por decreto.

Os meus últimos dias de viagem foram bem tranquilos e fiz a melhor massagem da minha vida, na Sweet Massage. Foi um presente receber essa massagem antes de seguir em frente, afinal eu tinha um longo caminho e a ansiedade para chegar logo na minha tão sonhada África era grande.

Aqui acabo minha primeira experiência pela Ásia. Com certeza irei voltar lá, até porque tem muitos destinos que ficaram para uma próxima vez. A Ásia vale a pena por tudo...as pessoas, as comidas, a cultura, a crença e as diversas novas sensações que você descobre num lugar antes desconhecido. Cruzamos com várias pessoas que amam esse desconhecido, e assim como eu, e posso falar pelas meninas que fizeram essa viagem comigo, que ter curiosidade e arriscar é uma das melhores sensações que um ser humano pode ter. Se jogar num outro mundo fora do seu, se relacionar, ou tentar pelo menos, com pessoas tão diferentes de você, e sobretudo compreendê-las, ver o outro lado, uma outra vida, ver o mundo que foi dado para nós. Vale para repensar, para sonhar e ter ainda mais vontade de experimentar da vida. Imagens alegres e tristes de um continente de grande sabedoria e que consegue se reiventar na sua própria história. À Ásia, às minhas amigas com quem eu fui, ao meu namorado e aos meus pais agradeço imensamente por essa experiência única e grandiosa. Pai, por onde estiver, você me deu grande incentivo em nossas conversar sobre meus planos, devo isso muito à você.

Até o próximo destino: África do sul – palco da Copa 2010, e com outro apoio do meu pai, uma conta poupança foi aberta para ver o Brasil ser hexa campeão...quem sabe não levamos essa também?!

Ho Chi Minh, a cidade das motocicletas

A culinária vietinamita, recheada de frutos do mar e temperos diversos, foi deliciosamente experimentada de ponto a ponto do país, mas foi em Ho Chi Minh, antiga e famosa Saigon, que conhecemos mais as comidas locais. O mercado noturno oferece uma enorme variedade, tudo fresco e bem preparado. O mais gostoso é sentar junto às pessoas locais, olhar seus pratos e copiar os pedidos. Aí sim você se sente mais próximo da cultura vietnamita.

Bola de arroz caramelizada - prato nomeado por mim


Apesar de ser Hanói a capital, é Ho Chi Minh que move o país com a vivacidade no comércio e na cultura. Andar pelas ruas sem rumo vale a pena para sentir a energia da cidade. Para os visistantes, com certeza o mais difícil é atravessar as ruas no lugar que tem mais motocileta do mundo, pelo menos até onde eu pude ver. Se nos outros lugares o trânsito é de tirar o fôlego, em Ho Chi Minh a coisa fica ainda mais tensa. Aprendemos a atravessar as ruas: simplesmente você tem que sair andando como se ninguém viesse em sua direção - só mais atenção para os carros. As numerosas motos desviam de você, sempre com a buzina apertada o tempo todo. Haja ouvido!

Carros e motos indo em todas as direções



No segundo dia fomos visitar o Cu Chi Tunnel, um sistema legendário criado pelos Vient Congs durante a Guerra do Vietnã. O túnel vai até a fronteira com o Cambodja, país que os apoiou durante a guerra, tendo 200 km de extensão e que foi a principal estratégia para resistir à invasão. Servia de base para as operações de combate, e também de comunicação e como rota para conseguirem os suplementos necessários. As pessoas viviam a maior parte dos dias submersas, criando alternativas para a sobrevivência. Existia uma cidade subterrânea com hospitais, escolas, mercados, porém a vida não foi fácil. Vivendo sob essas condições os recursos eram mínimos, além disso a malária foi a principal causa de mortes no Cu Chi Tunnel. Mas eles combateram e resistiram à invasão americana com seus próprios soldados, que não tinham idade, nem sexo exigidos, muitos eram crianças e mulheres. Parte da área foi revitalizada para o turismo, sendo possível andar até 200 m agachados debaixo da terra e sentir, de longe, como foi viver ali. O Museu da Guerra explica muito bem os fatos e as consequências da invasão americana. Fotos de crianças deformadas devido à exposição de um componente químico utilizado na fabricação de bombas espalham-se pelo museu e chocam bastante. Ficamos até sem saber o que dizer.





Uma das entradas para o túnel - esse tipo era coberto com
uma tampa de madeira e folhas para esconder dos soldados americanos

Quando lembro de toda a viagem o que mais vem à cabeça é o calor. Dentro de ônibus e vans ainda era pior. Mesmo com ar-condicionado nos transportes - o que poderia melhorar - ou o motorista volta e meia desligava ou não dava vazão. Num passeio que fizemos pelo delta do rio Mekong e seus arredores, entrar no ônibus era um desespero. Num dos trajetos ainda fiquei no fundão, no meio de duas pessoas desconhecidas que dormiam tranquilamente, não sei como. O sol na traseira do veículo transmitia um calor de grudar a pele.
  
Não sei aonde senti mais calor. Talvez em Vientiane ou no passeio do próprio Rio Mekong, mas para a Let a temperatura ficou ainda pior em Angkok Wat – Cambodja. Talvez sim, mas lá vale muito a pena qualquer perrengue.

Delta do Mekong

MERCADO FLUTUANTE





A pobreza nas margens do rio - a água poluída é utilizada
para consumo pessoal da população que mora ali

Mulher usando o clássico chapéu vietnamita

Nosso guia adorado por nós

Assistindo ao show - além de guia, ele é músico
Cássia tentando fazer a folha de arroz

Folha de arroz utilizada para fazer os deliciosos noodles

Nosso café da manhã

Cobra...enroscando aonde não deveria

No fundão do ônibus

Motos, motos, motos