quarta-feira, 21 de julho de 2010

Durban - último destino

À procura de bagunça, caos e desorganização de uma cidade africana, fui ao centro de Durban, no Victoria Street Market. Em Joburg, passei pelo downtown apenas de carro e umas duas vezes. Queria sentir essa parte da África pela última vez, e Durban me deu esse prazer.

Antes de me aventurar no centro, a gerente do meu hostel me indicou um street market que acontece apenas aos sábados e que eram expostos produtos de pessoas locais. Me senti na feira de artesanato da minha cidade natal, Cataguases, Minas Gerais, porém, com uma única diferença: tinha comida de todas as partes do mundo praticamente, isso colocando um máximo de vinte barracas. Crepe da França, curry da India, kebab da Grécia, brusqueta da Itália, e muita comida árabe e mais ainda indianas. Logo de manhã, sem tomar café, mandei logo uma samosa (frita) para dentro. Estava morrendo de fome e não tinha nada de iogurte, frutas, granolas, pães e manteiga. O jeito foi fazer um café-almoço. Claro que não poderia deixar de experimentar os doces. Torta de maçã com uma sobremesa que me lembrou arroz doce, mas não era, e com um delicioso creme por cima.

Sentei no gramado e fiquei observando as pessoas. Eram moradores locais e a mistura era perfeita. Indianos (a maioria deles), árabes, negros e brancos. Durban me deu uma sensação diferente. Parece que as consequências do Arpatheid não se difundiram tanto lá, pelo menos foi o que achei. No parquinho, crianças aproveitavam o dia quente e ensolarado. Já de início, Durban me conquistou.

Como orientado pela gerente, fui descobrir melhor em que ponto o ônibus para o centro passava. No meu guia de viagem aconselhava a fazer passeios em grupo, pois Durban não era uma cidade segura para turistas perambularem sozinhos. Ignorei o fato. Claro que precaução sempre é bom ter, mas no fundo já estava de saco cheio dessa falta de segurança e de certas privações. A gerente não seria maluca de arriscar a vida de um hóspede, então resolvi seguir e fui procurar o tal ponto.

Saí perguntando para guardadores de carros, feirantes e policiais. Ninguém sabia. As pessoas não são muito boas para dar informação, não é por falta de querer, pois são muito atenciosas, mas porque não sabem mesmo, pelo menos é o que parece. Numa rua perpendicular, avistei de longe uma placa de ponto de ônibus. Caminhando para lá em passos longos e rápidos, um feirante hippie, estilo Bob Marley, resolveu me seguir e puxar papo. Não dando muita ideia, respondia grosseiramente e pedia para ele me deixar em paz. Vendo uma senhora perto do ponto, parei e grudei nela. O cara ainda insistiu, não sei o que ele queria, veio sorridente e com um papo amigável. Parada no ponto olhei muito séria e pela última vez pedi que ele fosse embora. A resposta foi um "ok", e completou que "infelizmente não teria a chance de me encontrar de novo". Virei a cara e o infeliz desistiu. Ufa...antes só pensava no conselho do meu guia de viagem.

Até ver direito para onde ir, perdi o primeiro ônibus que passou. Depois de uns vinte minutos apareceu outro com destino “City”. Era essa mesmo. Mais uma vez era a única branca no meio de negros, árabes e indianos, mas foi a primeira vez que não me senti olhada com diferença. É claro que está escrito na minha testa que sou turista, e por isso uma mulher perguntou para qual lugar eu queria ir. Ela disse que seria melhor pegar outro ônibus, pois o que eu estava me deixaria um pouco longe. Bom, entrei mesmo assim e perguntei ao motorista. Muito provável que ele só tenha entendido “market”, pois achou que fosse um mercado a cinco minutos de onde estávamos. Enfim, me arrisquei e continuei no ônibus. 

Cheguei no centro e era uma loucura. Parecia uma Rua da Alfândega (para os cariocas), ou uma Primeiro de Março (para os paulistas). Saltei do ônibus no meio de uma avenida sem saber direiro para onde ir, já que as orientações nunca são bem explicadas. Um indiano, vendo a minha cara de socorro no meio da rua, parou o carro e quis me socorrer. Disse que poderia me levar até lá, mas educadamente agradeci. Queria também sentir um pouco da cidade e ver coisas que turista não vê. Caminhando por uns vinte a trinta minutos no centro de Durban, cheguei ao Victoria Street Market. Confesso que esperava mais. Em guias e revistas tinha lido que era um mercado de temperos e tecidos indianos misturado com a arte africana. Vi algumas lojas sim, mas nada de surpreendente. Imaginei um mercado enorme com a mistura dessas duas culturas, mas tinha loja de celular, farmácia e lojas normais. Achei o mercado muito mal conservado, e as pessoas transitam por lá para pegar ônibus e vans numa estação ao lado. Um pouco decepcionada e morrendo de fome, liguei para o Mbuso para me pegar. Fui direto para um shopping normal para comer alguma coisa. Cansada, cheguei no hotel, escrevi para o blog e fui dormir. Nada de praia nesse dia.

Domingo me vi respirando o ar puro, sentindo o calor que tanto queria, e pessoas caminhando, correndo, passeando na orla de Durban, a mais desenvolvida do país. O Ushaka Marine, que engloba os parques Sea World e Wet`n Wild, mais parques de diversão, piscinas públicas, restaurantes e escolas de surf e de mergulho completam o cardápio de entretenimento, e mais, é claro, a praia. Adorei estar num típico domingo de Durban, e o melhor, sem a turistada em função da Copa do Mundo. A cidade, aliás, o país, já voltou para a vida normal.

No dia seguinte estava eu lá de novo para ir no aquário do Sea world, dito como o maior do mundo, porém me recordo de um que fui na Austrália gigantesco. Acho que o guia se enganou. Qualquer aguário me faz bem, mesmo um mísero de água doce, então não tinha o que perder. Depois de saber que meu voo para Joburg tinha sido cancelado e que eu teria que voar às sete e meia da manhã, o aquário foi a melhor coisa para me tranquilizar. Fiquei até tarde na praia, e depois, rumo ao hotel arrumar as malas e dormir cedo, pois teria uma longa viagem pela frente até o Brasil.

Às cinco horas da manhã estava de pé e ansiosa para pergar o voo logo. Cheguei em Joburg por volta das oito e meia, guardei minhas malas no aeroporto e voltei para a minha segunda casa na África: Sandton City. Ótimo foi ver que o trem do aeroporto até Sandton está realmente funcionando. Para passar o tempo assisti um filme no cinema, muito triste por sinal, e fiz minhas últimas compras de sounvenirs – sou adepta ao consumo de artesanto, não resisto mesmo. Almocei num restaurante italiano que adoro e às três e meia, Dixon, o motorista que ficou com as minhas outras duas malas, me buscou para a gente ir para o aeroporto.

Dessa vez não tive a sensação de despedida. Acho que um dia voltarei. Coisas boas e não muito boas aconteceram, como em qualquer lugar isso é normal, mas não peguei trauma da cidade, como algumas pessoas pegaram. Tive experiências inesquecíveis em Joanesburgo, e graças a Deus nada de ruim aconteceu, aliás, nesses quatro meses realizei muitos dos meus sonhos. Volto para casa com a sensação de que aproveitei ao máximo, que está na hora de ir, mas que se eu quiser (e puder) posso realizar o que pensei em fazer, como ir nas montanhas dos Gorilas, no Congo ou Ruanda. Esses quatro meses deixarão saudades, sinal de que foi bom. Agradeço a todos pelos incentivos de realizar este blog. Espero que vocês tenham curtido, pois para mim compartilhar das minhas experiências e pensamentos me acrescentou muito mais do que eu imaginava. Agora, até o Brasil!










segunda-feira, 19 de julho de 2010

Neve na África

Ainda com as lembranças de Lesoto, decidi então explorar mais as montanhas altas de Drakensberg. Deixei pra trás o Bazbus, que passaria pelo hostel por volta das duas, para fazer uma trilha até a segunda maior cachoeira do mundo - a primeira se encontra na Venezuela. Depois da trilha, a idéia era ir direto para uma cidadezinha próxima pegar o ônibus para Durban. Tudo saiu como o combinado.

Tivemos que acordar meia hora mais cedo por minha causa, já que eu teria que estar por volta de quatro e quarenta da tarde no ponto do ônibus. Dessa vez um casal de franceses balanceou o grupo contra três holandeses. Tudo pronto às sete e meia da manhã...água, barra de cereal, casaco extra, cachecol, luvas e o nosso almoço incluído no pacote, nada mais que um sanduíche de queijo, alface e tomate, duas balas de caramelo, e o mais engraçado, um ovo cozido, ainda com casca. Duas horas de estrada e lá estávamos no Royal Natal National Park, nos pés do Amphitheatre, um paredão de basalto com 1500 metros de altitude.

O balanço do carro me deixou com mais sono ainda, mas só foi colocar a cara para fora que despertei num minuto. O vento gelado batia no meu rosto e logo me deu a impressão que não seria nada mole. Do ponto que estávamos já se via neve. Sabia que na África do Sul alguns pontos nevavam, mas não imaginava ter que me deparar com ela, mesmo que tenha sido em pouca quantidade. Começamos uma subida leve, que passou depois a ser arriscada pelo gelo no caminho, ficou pior com uma inclinação de uns 70°, e pior ainda com um vento forte e muito gelado. Eu era uma das mais preparadas. Estava com dois casacos quentes de poliéster e mais um de uma lã fininha, uma calça legging grossa por baixo, um cachecol, e a única de luvas, fora o guia. Ninguém imaginava o frio de vários menos graus. A minha falha foi não ter colocado um casaco com capuz, já que eu não tinha gorro, e ter esquecido de trocar as meias soquetes por umas mais longas.

Depois de quarenta minutos de caminhada, não sentia mais minhas orelhas e meus ouvidos doíam com o vento. Tive que inventar um novo estilo. Peguei meu cachecol e fiz dele uma bandana, enrolando até o último centímetro para cobrir minha cabeça. Foi a salvação. Estava aquecida nas orelhas, pescoço, braços, peito e pernas, mas o meu rosto e os meus pés continuavam congelados. Não tinha como tampar a boca e o nariz porque precisava de muito ar, muito mais do que o normal, e às vezes o vento era tão forte que dificultava para respirar.

A pior parte veio quando tivemos que escalar, e não subir, uns 300 metros. A neve nesse trecho estava mais fofa, o pé afundava e a ela entrava sem cerimônia no tênis. No topo, mas ainda não no ponto final, paramos para descansar e almoçar. Se ouvia só o barulho do vento e uma sinfonia de funga-funga e cofcof. Não podíamos deixar nossos músculos esfriarem, por isso depois de quinze minutos no máximo, prosseguimos com destino à cachoeira de Tugela.

Acabei de lembrar que a escalada não foi a pior parte, pois nessa hora o vento estava ameno. O ponto que achei realmente que a coisa estava ficando feia foi quando os meus pés começaram a doer muito, parecia que eu estava perdendo os movimentos. Lógico que meia soquete, um tênis de corrida(aqueles furados para a ventilação) e pés afundados em neve, é resultado de falta de circulação, e nessa hora o meu amigo vento queria me carregar junto com ele. Era difícil ficar em pé, mas pelo menos estávamos em terreno plano. Nem em um ano morando no gélido Canadá, eu senti o frio que passei nas montanhas de Drakensberg.

Finalmente chegamos na Tugela Fall. Como essa época do ano é muito seca (desde que cheguei só vi chuva duas vezes), já era de se esperar que não teria muita água. Um fio saía do pequeno rio no alto da montanha, e o resto estava congelado. Mas o que importava para mim era estar a mais de 1000 metros de altura, e o melhor, ter conseguido chegar até lá. O dia estava maravilhoso, e com menos vento deitei sobre uma pedra, fechei os olhos e senti o sol me aquecer. Meus pés começaram a voltar ao normal e ficaram prontos para a descida, que foi bem mais fácil. Voltamos por um outro caminho, e com ajuda de escadas nas partes mais íngremes, conseguimos descer com facilidade. Quando cheguei lá embaixo, olhei para cima para deixar fotografado na minha memória o que tinha acabado de fazer. Achei fantástico.

Exausta, já no posto de gasolina, ponto de espera do ônibus para Durban, esperei por mais de uma hora – nem precisávamos ter acordado mais cedo. Na viagem não consegui dormir e fui assistindo o filme “A Sogra”, já visto por mim umas três vezes. Fiquei super confortável, só me preocupei com um casal estranho que foi brigando em dialeto africano a viagem toda.

Cheguei em Durban por volta das nove da noite. Na rodoviária o motorista de táxi, Mbuso, me esperava. Tinha pegado o telefone dele com o hostel. Foi melhor assim, pois não gostei nada dos taxistas da rodoviária. No meu celular, sem brincadeira, tenho dez contatos de motoristas, e na minha carteira, mais uns 15 cartões. Na África é melhor saber com quem andar.

Feliz da vida com um quarto só para mim, tomei um banho (em banheiro comunitário), e caí igual a uma pedra na cama. Estava no meu último destino antes de voltar para o Brasil. Falando nisso, esqueci de comentar, mas nem que eu quisesse poderia ficar mais aqui. Só quando fui para Lesoto que me dei conta de que meu visto vence dia 27 de julho. Por sorte, outras viagens que comecei a planejar não deram certo por determinados motivos, mas como se pode ver, nada acontece por acaso, e confesso que estou agora ansiosa pela minha volta....quarta-feira irei pisar em terras brasileiras. Próxima e última postagem da minha viagem: Durban – a India na África.

 
Amanhecer no hostel

Ampitheatre












Tugela Fall
imagem: http://s3.amazonaws.com/readers/2009/06/14/tugela_1.jpg

domingo, 18 de julho de 2010

Lesoto - de volta no tempo

Encravado no meio da África do Sul, numa região montanhosa cortada por vales e rios, economicamente tem por base a agricultura de subsistência, Lesoto, antiga Basutolândia, é um país curioso, para não dizer místico.

Sua história se passa por conflitos com vários grupos étnicos, e após enfrentar ataques de várias frentes, a tribo basotho refigiou-se nas montanhas, que engloba as de Drakensberg – cadeia de montanhas mais alta da África do Sul-, por ser uma região favorável para a defesa de tribos rivais. A antiga Basutolândia foi colonizada pelos britânicos, e ganhou independência em 4 de outubro de 1966.


A única rota para se chegar ao país pelo estado de Kwala-Zulu Natal, África do Sul, é a estrada Sani Pass, um desfiladeiro que se estende por 20 km, a uma altura de 1300m. Foi exatamente por onde passei, cortando as montanhas do norte de Drakensberg e subindo eternamente até a fronteira entre os países. Fui no tour do próprio hostel com os meus amigos holandeses e mais uma australiana. Éramos duas contra onze.


A fronteira se limita a uma construção pequena no meio do nada e no pico mais alto da estrada. Quando chegamos, para a nossa surpresa, a energia tinha acabado. O que fazer nessa situação? Mas o policial, muito simpático por sinal, desistiu de esperar e carimbou nosso passaporte de saída do país dizendo que na volta passaria todos os dados para o computador. Declaramos nossos bens, o que se resumiu a uma lista de câmeras fotógraficas, e inciamos descidas e subidas no reino de Lesoto.


Chegamos na vila de Mafika, com uma população de 200 habitantes, uma escola precária e uma riqueza em história e tradição. Os alunos estavam de férias, mas uma das professoras nos recebeu para um bate-papo sobre a vida das crianças locais, que após concluirem o sétimo ano escolar tem que andar duas horas para estar na escola mais perto, isso porque as aulas começam às sete horas da manhã.
Algumas crianças nos rodeavam com sorrisos e curiosidade, e sempre de olho na câmera fotográfica. Um campo de futebol de terra batida e uma bola foi suficiente para descontrair e aproximar delas. Quando a brincadeira começou, outras vieram correndo para participar. Depois de um tempo, me afastei e fui ao encontro de uma família sentada à beira da estrada e que parecia esperar há horas por algum transporte. Por meio de gestos, já que a língua oficial é sesotho, ascenaram que sim. Apenas uma van, que chamam de ônibus, passa uma vez ao dia, mas sem horários certos e sem a certeza de que realmente irá passar. Na hora de voltar, ainda estavam lá, sentados pacientemente no mesmo lugar. Como tinha apenas um assento vago na nossa van, demos carona para uma senhora, que ficou na fronteira com a África do Sul.

Definitivamente Mafika preserva a cultura no seu modo de vida. A sensação é de voltar no tempo. A nossa guia, muito falante e entendedora das crenças locais, contou a história desde o século 19 aos tempos atuais, o que para nós parece ser em alguns casos ultrapassado. O que mais me impressionou foi que até hoje meninos, normalmente entre seus 14 aos 16 anos de vida, para se tornarem homens, vão em grupos para uma mata fechada, sem recursos, como comida e água, tendo que sobreviver por seis meses até que possam voltar para suas casas.

Eles tem a liberdade de escolher o momento de ir, mas caso demore muito, é sinal de coisa errada. Perguntei o que acontece se um não volta. A resposta veio como um tapa de luvas: “Acreditamos que se ele não era homem suficiente para estar aqui, a morte foi o melhor para ele, e para nós, morrer não significa uma coisa ruim. É claro que sofremos ao perder uma criança, um filho, mas entendemos”. Para os que voltam, eles já estão prontos para casar e iniciar a vida sexual.

A idade limite para essa “prova” é por volta dos vinte e dois anos. Se até essa idade eles não optarem por fazer, devem se mudar dali, pois sem mulher e filho não tem o que acrescentar, inclusive não poderão dar continuidade ao nome da família. A opção sexual entra em jogo, e os homossexuais, se assumidos, também não devem permanecer. Em relação às meninas, quando ficam menstruadas pela primeira vez, vira notícia para a vila toda. Isso é para que os homens possam passar a vê-las como mulheres, e não mais como crianças.

Sem energia, as pessoas utilizam de certos meios de comunicação inusitados. Como vivem da agricultura e da criação de bovinos, quando há excesso de vegetais, o agricultor ergue uma bandeira verde, quando se mata um boi (apenas em casos específicos como casamentos) e sobra carne, se ergue uma bandeira vermelha, já a branca é convidativa para beber, e assim a comunidade compartilha de sua produção, porque até a cerveja é feita artesanalmente por eles, só os mais velhos podem beber, e como não bastasse, é feita de sorgo. Experimentei e não passou de um gole. Intragável. Outro meio de comunicação que funciona perfeitamente são as crianças, utillizadas como o nosso SMS.

Dentro de uma casa redonda – as casas são contruídas dessa forma, pois acredita-se que os espíritos ruins ficam em quinas -, foram feitas várias perguntas para a guia, e aqui coloco algumas delas:

- O casal pode se separar?
R: Por que você vai querer se separar? Você escolheu essa pessoa.

-Mas se o casal estiver brigando muito, não pode se separar?
R: Se o casal estiver em conflito, eles ouvirão conselhos de muitos. A esposa pode passar um tempo na casa de seus pais, mas só um tempo, pois é certo que depois eles ficarão bem. Todos daqui se preocupam no bem estar do outro, por isso todos se envolvem. É muito simples.

Em relação ao atendimento à saúde:

- Qual é a medicina local, já que na África curandeiros tem uma grande força, ainda mais em lugares remotos?

R: Os remédios realmente são à base de ervas e plantas.
- E quando há uma doença mais grave, como câncer?

R: Câncer não é uma doença daqui...nós não temos estresse, com o que se estressar?
- Mas por exemplo, a AIDS que tem um número alto de portadores?

R: Aqui eles não fazem teste, por isso não ficam sabendo e não são tratados. Mesmo se soubessem, teriam que ir para cidade para conseguir atendimento, e eles não tem como ir.
A resposta continou e teve como final a seguinte frase: “aqui as crianças desde cedo aprendem que não podem quebrar a perna, por exemplo, por isso não precisamos de outros tipos de remédio.”

A vida nos vilarejos de Lesoto se conduz dessa forma. Se a opção for sair do país se leva seis anos para conseguir um passaporte, e nós reclamamos os dez dias de espera. De algumas respostas ainda me questiono, mas mesmo assim o bate-papo soou suave e verdadeiro. Não sei de fato qual é a veracidade das coisas, mas gosto de pensar que é cem por cento, pois Lesoto me fez conhecer a verdadeira Africa, e desse dia jamais esquecerei.



















sexta-feira, 16 de julho de 2010

De mochila nas costas

Me despedi de Joanesburgo quarta-feira às nove horas da manhã fazendo praticamente um tour pela cidade. Com destino para Durban, optei por pegar o Bazbus, um sistema de transporte para turistas, ou melhor, mochileiros. O meu ponto de encontro para pegar o mini ônibus foi o hostel Accoustix @ Grant’s. Levantei às seis da manhã, e meia hora depois estava dentro do táxi batendo queixo e congelada, mas em vinte minutos cheguei ao local. Marcado para às sete e quinze, o motorista atrasou apenas cinco minutos. Acontece que fui a primeira da lista de passageiros e por isso conheci praticamente todos os hostels da cidade, inlusive todos os bairros, e fora o tráfego típico, já nada bom para um início de viagem. Às nove horas da manhã estávamos saindo do ponto final, rumo à Drakensberg Mountains.

No caminho, nem a paisagem deslumbrante me fez ficar acordada. Dormi igual a uma criança. Falando nelas, no meu último dia fui ao orfanato e me deu uma vontade enorme de não largá-las nunca mais.....sempre encontros, desencontros e despedidas pela vida.

Enfim, quando acordei depois de umas duas horas de uma boa soneca, me bateu uma felicidade instantânea. Era exatamente aquilo que eu estava esperando, estar no meio do nada, rodeada de montanhas e pequenas vilas ao longo do percurso. Minha felicidade aumentou  ainda mais quando cheguei ao hostel e vi que o lugar era aconchegante e arrumado. Tinha lido muitos comentários ruins no site Trip Advisor, mas arrisquei por ser o único lugar a ser indicado pelo Bazbus, inclusive um dos pontos de embarque e desembarque. Arrisquei também em optar por ficar no dormitório com pessoas que não conheço, e o pior, dormitório misto, o que quer dizer homens e mulheres juntos. Disso eu não me dei muito bem no primeiro dia.

Quando entrei no quarto veio um cheiro de chulé repentino. Logo pensei na besteira que poderia estar fazendo tentando economizar algum dinheiro. Mesmo assim encarei. Tinha apenas uma cama sobrando, o quarto tinha um diamêtro de aproximadamente 5 m, o banheiro era dentro, o que a princípio achei bom, mas a porta era como uma tábua de madeira e não ocupava todo o espaço que deveria. Menos mal que não havia ninguém quando cheguei, e tive um tempo maior para tentar me adaptar. Pensei logo em tomar banho antes que todo mundo voltasse das trilhas e passeios. Foi o que fiz, e para a minha tristeza, mesmo com as minhas havainas, não deu para impedir a água do chão de tocar os meus pés. O ralo estava um pouco entupido, obstruindo a água de escoar. Achei melhor não ficar olhando para baixo e tomar um banho rápido, já que o banheiro não estava muito limpo. Respirei fundo várias vezes e repeti comigo mesmo que seria apenas por duas noites.

A primeira foi péssima. Fora o chulé, que dei um jeito de ficar respirando um hidratante, uma das meninas tossiu a noite toda, e ainda eu estava rodeada de holandeses...logo eles. A sorte é que na segunda noite o “chulepento” não estava mais, e aí pude respirar normalmente. Mas, como nada é perfeito, faltou água quente no banheiro e fui tomar banho num outro que ora esquentava, ora esfriava. Só achei bom porque não teve a enchente do dia anterior.

Isso tudo compensou com os dois dias em lugares inesquecíveis. Quando uma coisa ruim leva a uma outra muito melhor, acabo achando graça e relaxando, foi assim que consegui dormir bem na noite seguinte, mas sempre pensando no meu quartinho, apenas meu, já reservado no próximo hostel. É onde estou agora,só que antes preciso falar separadamente de cada um dos dias em Drakensberg Mountains. Tenho que correr contra o tempo e a conexão da internet, normalmente lenta. (Postagens seguintes: Lesoto e Neve na África)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Ainda Joburg

Estou contente que domingo é o último dia da Copa. Meus ouvidos não suportam mais as vuvuzelas, os papos e as notícias na TV, e muito menos a música WAKA WAKA. Fui a um restaurante Tailandês para matar a saudade dos temperos da minha viagem, e uma garçonete confessou que está ficando irritada toda vez que ouve a música, isso quer dizer, 24 horas por dia.

A coitada trabalha em frente a uma tenda enorme da Sony que fica exibindo o tempo todo vídeos em 3D, e claro, o clipe da Shakira não poderia faltar. Aliás essa Copa foi versão 3D. Fiquei admirada como tudo gira em torno dessa tecnologia. Admito que me impressionou a qualidade, mesmo depois do fenômeno Avatar. Ver os jogos com os óculos patéticos vale a pena, parece que você está dentro do estádio. Assisti apenas o replay, mas nos cinemas era possível ver ao vivo. É uma boa experiência para quem curte.

Essa semana foi totalmente tranquila, para não dizer ociosa. Sandton voltou a ser minha segunda casa e fui a vários e bons restaurantes. O que bato palma para essa cidade é poder escolher qualquer tipo de culinária...brasileira está dentro das opções, mas ainda não cheguei ao ponto de ir lá. O restaurante chama Rodízio, o nome nada mais justo, porém não posso falar se chega aos pés das nossas churrascarias. Estou aproveitando os meus últimos dias em Joanesburgo passando também pelo mercado africano, Nelson Mandela Square, Montecassino e descobrindo outras coisas até legais. Aqui não está nas cidades tops do mundo, mas com um pouco de esforço tem como ser proveitoso, sem falar nos dias de céu azul e o pôr-do-sol, incrível todos os dias.



Ainda não acabei minha “expedição” África do Sul, por isso não quero premeditar o melhor lugar que conheci. Semana que vem partirei pelos arredores de Durban, e se der tempo, chegarei até George, uma região com espetaculares paisagens da costa marítima. Estou ansiosa para uma viagem totalmente sozinha, e louca para conhecer novos lugares. Não vai ser por muito tempo, talvez uns dez dias se eu não mudar minha passagem – como disse, é para este lado que estou indo, mas se me der um insight vou querer voltar atrás e rumar por outros caminhos, a minha alma de viajante ainda não se acalmou.



Aproveito para postar imagens de lugares e pessoas que me marcaram, alguns ainda não mostrei, nem mesmo citei, mas são tantos que não dei conta de falar de todos e sobre tudo.

 

Vista da cidade de Joanesburgo


Estoque de peles, ossos e chifres de animais
em farmácia dita herborista no centro de Joanesburgo


Arte na Orlando Towers, Soweto


A frase "I love Soweto" confirma a adoração pelo bairro

Esquina da antiga casa de Nelson Madela, Soweto


Museu do Apartheid

Crianças no museu



  Birds Garden











ONG Equip - semelhanças com o
Toque de Mão - projeto no qual trabalhei no Brasil







  
Elephant Sanctuary








Mais um pouco de leões, girafas e guepardos







Crianças de escolas públicas se divertem alimentando girafas

O pôr-do-sol de todos os dias


Pluto - companheiro nas horas vagas