Encravado no meio da África do Sul, numa região montanhosa cortada por vales e rios, economicamente tem por base a agricultura de subsistência, Lesoto, antiga Basutolândia, é um país curioso, para não dizer místico.
Sua história se passa por conflitos com vários grupos étnicos, e após enfrentar ataques de várias frentes, a tribo basotho refigiou-se nas montanhas, que engloba as de Drakensberg – cadeia de montanhas mais alta da África do Sul-, por ser uma região favorável para a defesa de tribos rivais. A antiga Basutolândia foi colonizada pelos britânicos, e ganhou independência em 4 de outubro de 1966.
A única rota para se chegar ao país pelo estado de Kwala-Zulu Natal, África do Sul, é a estrada Sani Pass, um desfiladeiro que se estende por 20 km, a uma altura de 1300m. Foi exatamente por onde passei, cortando as montanhas do norte de Drakensberg e subindo eternamente até a fronteira entre os países. Fui no tour do próprio hostel com os meus amigos holandeses e mais uma australiana. Éramos duas contra onze.
A fronteira se limita a uma construção pequena no meio do nada e no pico mais alto da estrada. Quando chegamos, para a nossa surpresa, a energia tinha acabado. O que fazer nessa situação? Mas o policial, muito simpático por sinal, desistiu de esperar e carimbou nosso passaporte de saída do país dizendo que na volta passaria todos os dados para o computador. Declaramos nossos bens, o que se resumiu a uma lista de câmeras fotógraficas, e inciamos descidas e subidas no reino de Lesoto.
Chegamos na vila de Mafika, com uma população de 200 habitantes, uma escola precária e uma riqueza em história e tradição. Os alunos estavam de férias, mas uma das professoras nos recebeu para um bate-papo sobre a vida das crianças locais, que após concluirem o sétimo ano escolar tem que andar duas horas para estar na escola mais perto, isso porque as aulas começam às sete horas da manhã.
Algumas crianças nos rodeavam com sorrisos e curiosidade, e sempre de olho na câmera fotográfica. Um campo de futebol de terra batida e uma bola foi suficiente para descontrair e aproximar delas. Quando a brincadeira começou, outras vieram correndo para participar. Depois de um tempo, me afastei e fui ao encontro de uma família sentada à beira da estrada e que parecia esperar há horas por algum transporte. Por meio de gestos, já que a língua oficial é sesotho, ascenaram que sim. Apenas uma van, que chamam de ônibus, passa uma vez ao dia, mas sem horários certos e sem a certeza de que realmente irá passar. Na hora de voltar, ainda estavam lá, sentados pacientemente no mesmo lugar. Como tinha apenas um assento vago na nossa van, demos carona para uma senhora, que ficou na fronteira com a África do Sul.
Definitivamente Mafika preserva a cultura no seu modo de vida. A sensação é de voltar no tempo. A nossa guia, muito falante e entendedora das crenças locais, contou a história desde o século 19 aos tempos atuais, o que para nós parece ser em alguns casos ultrapassado. O que mais me impressionou foi que até hoje meninos, normalmente entre seus 14 aos 16 anos de vida, para se tornarem homens, vão em grupos para uma mata fechada, sem recursos, como comida e água, tendo que sobreviver por seis meses até que possam voltar para suas casas.
Eles tem a liberdade de escolher o momento de ir, mas caso demore muito, é sinal de coisa errada. Perguntei o que acontece se um não volta. A resposta veio como um tapa de luvas: “Acreditamos que se ele não era homem suficiente para estar aqui, a morte foi o melhor para ele, e para nós, morrer não significa uma coisa ruim. É claro que sofremos ao perder uma criança, um filho, mas entendemos”. Para os que voltam, eles já estão prontos para casar e iniciar a vida sexual.
A idade limite para essa “prova” é por volta dos vinte e dois anos. Se até essa idade eles não optarem por fazer, devem se mudar dali, pois sem mulher e filho não tem o que acrescentar, inclusive não poderão dar continuidade ao nome da família. A opção sexual entra em jogo, e os homossexuais, se assumidos, também não devem permanecer. Em relação às meninas, quando ficam menstruadas pela primeira vez, vira notícia para a vila toda. Isso é para que os homens possam passar a vê-las como mulheres, e não mais como crianças.
Eles tem a liberdade de escolher o momento de ir, mas caso demore muito, é sinal de coisa errada. Perguntei o que acontece se um não volta. A resposta veio como um tapa de luvas: “Acreditamos que se ele não era homem suficiente para estar aqui, a morte foi o melhor para ele, e para nós, morrer não significa uma coisa ruim. É claro que sofremos ao perder uma criança, um filho, mas entendemos”. Para os que voltam, eles já estão prontos para casar e iniciar a vida sexual.
A idade limite para essa “prova” é por volta dos vinte e dois anos. Se até essa idade eles não optarem por fazer, devem se mudar dali, pois sem mulher e filho não tem o que acrescentar, inclusive não poderão dar continuidade ao nome da família. A opção sexual entra em jogo, e os homossexuais, se assumidos, também não devem permanecer. Em relação às meninas, quando ficam menstruadas pela primeira vez, vira notícia para a vila toda. Isso é para que os homens possam passar a vê-las como mulheres, e não mais como crianças.
Sem energia, as pessoas utilizam de certos meios de comunicação inusitados. Como vivem da agricultura e da criação de bovinos, quando há excesso de vegetais, o agricultor ergue uma bandeira verde, quando se mata um boi (apenas em casos específicos como casamentos) e sobra carne, se ergue uma bandeira vermelha, já a branca é convidativa para beber, e assim a comunidade compartilha de sua produção, porque até a cerveja é feita artesanalmente por eles, só os mais velhos podem beber, e como não bastasse, é feita de sorgo. Experimentei e não passou de um gole. Intragável. Outro meio de comunicação que funciona perfeitamente são as crianças, utillizadas como o nosso SMS.
Dentro de uma casa redonda – as casas são contruídas dessa forma, pois acredita-se que os espíritos ruins ficam em quinas -, foram feitas várias perguntas para a guia, e aqui coloco algumas delas:
- O casal pode se separar?
R: Por que você vai querer se separar? Você escolheu essa pessoa.
-Mas se o casal estiver brigando muito, não pode se separar?
R: Se o casal estiver em conflito, eles ouvirão conselhos de muitos. A esposa pode passar um tempo na casa de seus pais, mas só um tempo, pois é certo que depois eles ficarão bem. Todos daqui se preocupam no bem estar do outro, por isso todos se envolvem. É muito simples.
Em relação ao atendimento à saúde:
- Qual é a medicina local, já que na África curandeiros tem uma grande força, ainda mais em lugares remotos?
R: Os remédios realmente são à base de ervas e plantas.
- E quando há uma doença mais grave, como câncer?
R: Câncer não é uma doença daqui...nós não temos estresse, com o que se estressar?
- Mas por exemplo, a AIDS que tem um número alto de portadores?
R: Aqui eles não fazem teste, por isso não ficam sabendo e não são tratados. Mesmo se soubessem, teriam que ir para cidade para conseguir atendimento, e eles não tem como ir.
A resposta continou e teve como final a seguinte frase: “aqui as crianças desde cedo aprendem que não podem quebrar a perna, por exemplo, por isso não precisamos de outros tipos de remédio.”
A vida nos vilarejos de Lesoto se conduz dessa forma. Se a opção for sair do país se leva seis anos para conseguir um passaporte, e nós reclamamos os dez dias de espera. De algumas respostas ainda me questiono, mas mesmo assim o bate-papo soou suave e verdadeiro. Não sei de fato qual é a veracidade das coisas, mas gosto de pensar que é cem por cento, pois Lesoto me fez conhecer a verdadeira Africa, e desse dia jamais esquecerei.
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