terça-feira, 15 de junho de 2010

Crianças do Mundo

Minha vida aqui não gira somente em torno da Copa do Mundo. Comecei a fazer um trabalho voluntário numa organização que atende crianças vulneráveis socialmente, sejam elas orfãs, portadoras do vírus HIV ou casos em que os pais não podem cuidar – todas filhas da pobreza.

Como já mencionado antes, a África do Sul carrega milhões de pessoas vivendo com o vírus, os números estão caindo, mas ainda continuam assustadores. Segundo informações da UNICEF, aproximandamente 1 milhão e 100 bebês nascem por ano, sendo que 300 mil estão expostos ao vírus HIV - principal causa de mortalidade infantil entre crianças até cinco anos de idade, e como não bastasse, atinge também a 20% da mortalidade materna do país.

Além de nascerem sem um amparo, essas crianças vem ao mundo já aprendendo a lidar contra a morte. Graças à Ciência, em constante busca pela cura, elas conseguem viver em comum com a sociedade. Dos inúmeros incômodos que tenho, este é o principal. Como um ser tão pequeno e indefeso já entra no mundo com tantas questões para lidar, tendo que descobrir formas para sobreviver nesse meio selvagem, que não é como a natureza manda, mas como nós seres humanos o transformamos?

Escrevi um texto sobre a infância para o relatório anual da instituição que trabalhei no Brasil. Num parágrafo, coloquei assim: “(...) as crianças nos mostram suas vivências e muitas vezes nos dizem por onde ir. No mundo de hoje, vulneráveis pelo reflexo da violência e pobreza, elas nos revelam que o tempo de ser criança mudou. Mas, para nós, mesmo encarando e lidando com a realidade atual, queremos dar a elas o prazer e o direito de ser criança.” Completo agora com: prazeres e direitos estes que estão perdidos na complexidade dos governantes e nos egos das pessoas.

O mundo não é de todo ruim, mesmo na pobreza há beleza, como o esforço para viver, a esperança para melhorar a qualidade de vida e a alegria que se tira de não sei de onde no meio de tanta baderna. Conheci uma mulher que deu à luz a sua filha no meio do ônibus e do trânsito do Rio de Janeiro. Se eu não me engano, a recém-nascida tem mais sete irmãos, sendo que a diferença do penúltimo para ela é de 10 meses. A família vive em péssimas condições de moradia. Sem o mínimo de amparo, nasceu numa situação precária, mas na última vez que a vi expressava uma fortaleza dentro de si. Aí está uma outra beleza.

Um fato ainda mais recente e que mexeu comigo é que em apenas uma semana no meu atual “trabalho”, mais um bebê prematuro, desnutrido e sem condições da mãe cuidar, chegou na instituição. Tem mais dois bebês em situações parecidas, um deles foi encontrado numa sacola, e por um milagre sobreviveu.

São essas algumas das infinitas histórias que vemos em nosso mundo, abaixo dos nossos olhos. Aliás...quando você fecha os olhos, qual é a imagem que tem de uma criança? Sorridente, chorando gritando, brincando, dormindo, brigando, correndo ou num canto em silêncio? Na praia, na escola, no parque, na praça, no circo, na rua, no sinal ou na favela? Comendo brigadeiro, se lambuzando com sorvete, não querendo comer ou sem nada para comer? Ela é importante para você? Talvez a coisa mais preciosa do mundo, não é mesmo? Pode ser que para outros seja uma criança qualquer, mas será que existe uma criança “qualquer” ?

Quando fecho os meus olhos vem um filme de imagens delas. Às vezes é a criança que tenho como a mais especial, ou a que nasceu no meio do ônibus, a encontrada numa sacola, muitas eu nem as conheço, mas o que sinto é que elas são tão importantes para mim, como sou para elas, como nós somos. Elas estão em todos lugares, feios e bonitos, mas o melhor é vê-las no futuro. Crianças da América, África, Ásia...em qualquer parte elas tem o direito de sentir o prazer de viver uma boa infância, não importa como, mas tem que ser prazerosa. Gostaria só de que ao abrir os meus olhos poderia ver isso já realizado, mas como para esse meu desejo não basta um click, vou fazer de tudo o que está ao meu alcance para percorrer este longo trajeto. Chegaremos lá.

Crianças da África - como no Brasil, o futebol também mexe com todas as idades


P.S.:Minha vida não é só Copa, mas hoje tem Brasil. Próxima postagem com certeza será sobre a emoção de ver a nossa seleção numa Copa do Mundo.Até mais!

4 comentários:

  1. Raquel,parabens por mais essa grande atitude. Com certeza vc esta levando para essas crianças muito carinho e amor que elas tanto precisam para continuar nessa luta por uma sobrevivencia menos sofrida e mais justa.
    Um grande beijo

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  2. Quelzinha, fiquei emocionada ao ler sobre essas crianças de todo o mundo! Precisamos de pessoas como você para dar a elas uma atenção especial.
    Continue seu trabalho e com certeza essas crianças vão te ensinar muitas coisas...
    Beijão,
    Mãe

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  3. Lindo esse trabalho seu com as criancas.
    As vezes o pouco que ajudamos, para eles é muito.
    Lelena

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  4. Parabéns prima!

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