Ainda com as lembranças de Lesoto, decidi então explorar mais as montanhas altas de Drakensberg. Deixei pra trás o Bazbus, que passaria pelo hostel por volta das duas, para fazer uma trilha até a segunda maior cachoeira do mundo - a primeira se encontra na Venezuela. Depois da trilha, a idéia era ir direto para uma cidadezinha próxima pegar o ônibus para Durban. Tudo saiu como o combinado.
Tivemos que acordar meia hora mais cedo por minha causa, já que eu teria que estar por volta de quatro e quarenta da tarde no ponto do ônibus. Dessa vez um casal de franceses balanceou o grupo contra três holandeses. Tudo pronto às sete e meia da manhã...água, barra de cereal, casaco extra, cachecol, luvas e o nosso almoço incluído no pacote, nada mais que um sanduíche de queijo, alface e tomate, duas balas de caramelo, e o mais engraçado, um ovo cozido, ainda com casca. Duas horas de estrada e lá estávamos no Royal Natal National Park, nos pés do Amphitheatre, um paredão de basalto com 1500 metros de altitude.
O balanço do carro me deixou com mais sono ainda, mas só foi colocar a cara para fora que despertei num minuto. O vento gelado batia no meu rosto e logo me deu a impressão que não seria nada mole. Do ponto que estávamos já se via neve. Sabia que na África do Sul alguns pontos nevavam, mas não imaginava ter que me deparar com ela, mesmo que tenha sido em pouca quantidade. Começamos uma subida leve, que passou depois a ser arriscada pelo gelo no caminho, ficou pior com uma inclinação de uns 70°, e pior ainda com um vento forte e muito gelado. Eu era uma das mais preparadas. Estava com dois casacos quentes de poliéster e mais um de uma lã fininha, uma calça legging grossa por baixo, um cachecol, e a única de luvas, fora o guia. Ninguém imaginava o frio de vários menos graus. A minha falha foi não ter colocado um casaco com capuz, já que eu não tinha gorro, e ter esquecido de trocar as meias soquetes por umas mais longas.
Depois de quarenta minutos de caminhada, não sentia mais minhas orelhas e meus ouvidos doíam com o vento. Tive que inventar um novo estilo. Peguei meu cachecol e fiz dele uma bandana, enrolando até o último centímetro para cobrir minha cabeça. Foi a salvação. Estava aquecida nas orelhas, pescoço, braços, peito e pernas, mas o meu rosto e os meus pés continuavam congelados. Não tinha como tampar a boca e o nariz porque precisava de muito ar, muito mais do que o normal, e às vezes o vento era tão forte que dificultava para respirar.
A pior parte veio quando tivemos que escalar, e não subir, uns 300 metros. A neve nesse trecho estava mais fofa, o pé afundava e a ela entrava sem cerimônia no tênis. No topo, mas ainda não no ponto final, paramos para descansar e almoçar. Se ouvia só o barulho do vento e uma sinfonia de funga-funga e cofcof. Não podíamos deixar nossos músculos esfriarem, por isso depois de quinze minutos no máximo, prosseguimos com destino à cachoeira de Tugela.
Acabei de lembrar que a escalada não foi a pior parte, pois nessa hora o vento estava ameno. O ponto que achei realmente que a coisa estava ficando feia foi quando os meus pés começaram a doer muito, parecia que eu estava perdendo os movimentos. Lógico que meia soquete, um tênis de corrida(aqueles furados para a ventilação) e pés afundados em neve, é resultado de falta de circulação, e nessa hora o meu amigo vento queria me carregar junto com ele. Era difícil ficar em pé, mas pelo menos estávamos em terreno plano. Nem em um ano morando no gélido Canadá, eu senti o frio que passei nas montanhas de Drakensberg.
Finalmente chegamos na Tugela Fall. Como essa época do ano é muito seca (desde que cheguei só vi chuva duas vezes), já era de se esperar que não teria muita água. Um fio saía do pequeno rio no alto da montanha, e o resto estava congelado. Mas o que importava para mim era estar a mais de 1000 metros de altura, e o melhor, ter conseguido chegar até lá. O dia estava maravilhoso, e com menos vento deitei sobre uma pedra, fechei os olhos e senti o sol me aquecer. Meus pés começaram a voltar ao normal e ficaram prontos para a descida, que foi bem mais fácil. Voltamos por um outro caminho, e com ajuda de escadas nas partes mais íngremes, conseguimos descer com facilidade. Quando cheguei lá embaixo, olhei para cima para deixar fotografado na minha memória o que tinha acabado de fazer. Achei fantástico.
Exausta, já no posto de gasolina, ponto de espera do ônibus para Durban, esperei por mais de uma hora – nem precisávamos ter acordado mais cedo. Na viagem não consegui dormir e fui assistindo o filme “A Sogra”, já visto por mim umas três vezes. Fiquei super confortável, só me preocupei com um casal estranho que foi brigando em dialeto africano a viagem toda.
Cheguei em Durban por volta das nove da noite. Na rodoviária o motorista de táxi, Mbuso, me esperava. Tinha pegado o telefone dele com o hostel. Foi melhor assim, pois não gostei nada dos taxistas da rodoviária. No meu celular, sem brincadeira, tenho dez contatos de motoristas, e na minha carteira, mais uns 15 cartões. Na África é melhor saber com quem andar.
Feliz da vida com um quarto só para mim, tomei um banho (em banheiro comunitário), e caí igual a uma pedra na cama. Estava no meu último destino antes de voltar para o Brasil. Falando nisso, esqueci de comentar, mas nem que eu quisesse poderia ficar mais aqui. Só quando fui para Lesoto que me dei conta de que meu visto vence dia 27 de julho. Por sorte, outras viagens que comecei a planejar não deram certo por determinados motivos, mas como se pode ver, nada acontece por acaso, e confesso que estou agora ansiosa pela minha volta....quarta-feira irei pisar em terras brasileiras. Próxima e última postagem da minha viagem: Durban – a India na África.
Amanhecer no hostel
Ampitheatre
Tugela Fall
imagem: http://s3.amazonaws.com/readers/2009/06/14/tugela_1.jpg









Mais uma linda aventura! Aproveite até a hora do embarque.
ResponderExcluirFaça uma boa viagem e vamos marcar o nosso "chopinho"!
Grande beijo